“Que defesa que você fez na cabeçada do Bebeto, hein?”,observou João Marcelo. Ricardo Cruz,o autor da defesa, me olhou sem entender muito bem. Como um menino de seis anos falava com tanto desembaraço de um lance que só conhecera de ouvir dizer? “Vi no computador”, esclareceu JM,que já frequenta o You Tube à procura de glórias do Botafogo, tão ausentes nos últiimos tempos. Humilde, nosso goleiro campeão de 89 lhe disse que a defesa não foi tão boa assim. “Eu espalmei. Podia ter agarrado”, disse, afagando a cabeça do meu filho.
No hall que leva ao campo, voltei a bons tempos. Tempos em que os jogadores honravam a camisa que vestiam. Muitos estavam lá. Além de Ricardo Criz, Maurício, Mazolinha, Marquinho, Luisinho, Carlos Alberto Santos e Gotttardo. Foi com esse último que João Marcelo entrou em campo, na homenagem que a diretoria do Botafogo prestou aos inesquecíveis campeões de 89. Homenagem, diga-se, insossa diante da promessa de um jogo.
Vinte minutos mais tarde, era a vez de Alessandro dar a mão a João Marcelo na entrada em campo. “Faz um gol, Alessandro”, pediu o ingênuo garoto. “Vou tentar. Pode deixar”, respondeu o lateral-direito. Mas o que se viu depois desse curto diálogo foi um circo de horrores, uma piada de mau gosto, o mais fino humor negro. Havia chuteiras coloridas: Lúcio Flávio de azuis, Tony de vermelhas, Victor Simões de amarelas. Mas os pisantes importados - perdão pela citação, amigo Zé Luiz do Império - faziam de tudo, menos tratar a bola com a mínima dignidade. Nem mesmo o golaço de Victor Simões foi capaz de apagar a lances bizonhos,falahas tão grosseiras.
Depois do quarto gol do Goiás, saquei do bolso o ipod. Por ironia, começou a tocar Águas de Março, aquele clássico de Tom Jobim que fala em fundo do poço, em fim do caminho. Em seguida, mais uma música da Bossa Nova, Desafinado, muito adequado para um time que tem Lúcio Flávio como maestro.
Uma das grandes diversões do João Marcelo- senão a maior - é ir a um jogo do Botafogo. Ontem, quinze minutos antes de acabar a partida, ele pediu pra ir embora. Estava triste com o que faziam com uma paixão que nos é tão cara. No caminho para o esctacionamento, uma mensagem no celular. Era Rodrigo Federman, de Vitória: “Nõs não merecemos isso!”. Nem nós nem o Botafogo, meu amigo, merecemos um time que fez Fernandinho Guimarães lembrar dos maus tempos de Puruca e Cremílson.
Ou se toma uma providência ou no final do ano estaremos no fundo do poço, não haverá mais caminho. E seremos só apaixonados torcedores a conversar sobre velhas recordações.
A cada novo dia amo mais o Botafogo!
Paulo Marcelo Sampaio