
Como conselheiro do Botafogo ocupei apenas uma vez a tribuna. Não gosto muito de falar em público. Mas naquele dia tinha uma motivação, uma ideia fixa. Reconheço que um tanto fora de moda, em tempos de loas ao Engenhão.
Inconformado em não ter nosso próprio estádio num local de tradição – somos os únicos, diga-se, a bem da verdade, a não ter um estádio nosso – sugeri aos dirigentes, Bebeto de Freitas à frente, que tentássemos uma permuta com o Governo Federal. Construiríamos o estádio para 20 mil pessoas, num terreno da UFRJ, ao lado do Canecão, bem em frente à sede de Venceslau Brás e, em troca, o Botafogo ofereceria suas dependências às escolas públicas da região. Palavras ao vento.

Nem amigos mais próximos me apoiaram. Apenas uma pessoa achou a ideia boa. Vida que segue, diria João Saldanha. Bebeto, atencioso, agradeceu, disse que isso já tinha sido cogitado e era inviável. Por uma dessas coincidências que só mesmo nós, botafoguenses, podemos entender, dia desses João Ignácio Muller, uma das ótimas e caras amizades que o Glorioso me proporcionou, revelou-me um velho sonho de Octávio de Moraes, campeoníssimo de 1948 e arquiteto de renome. Qual seria a ideia de Octávio? Construir sobre o shopping um estádio. Isso mesmo. Um estádio suspenso. Morreu com a mágoa do projeto jamais ter sido apreciado.

O Engenhão é bonito? Claro que é! É moderno? Também é. Mas ele não tem a nossa alma, o nosso espírito. De nosso mesmo, apenas as duas estátuas da ala oeste, as de Nilton Santos e de Garrincha, uma iniciativa de Marcos Müller, outro caro amigo. Se é para ficar no Engenhão, que a direção do Botafogo assuma de fato o estádio. Que torne o Engenhão atrativo para o torcedor. Até mesmo entrar no estádio antes dos jogos é difícil, mesmo com um jogo de público razoável. Conforto mesmo só tem quem freqüenta os camarotes. Caso contrário perderemos em breve a concessão.

Pelas fotos, como essas que ilustram o texto de hoje, sinto uma saudade daqueles tempos, mesmo não tendo ido uma vez sequer ao estádio de General Severiano. Reparem como nossas dependências eram impecáveis. O estadinho tinha algo de muito peculiar. Só as sociais eram cobertas e, mesmo assim, não completamente. Os três primeiros lances dessas arquibancadas ficaram ao ar livre. E era nesse espaço que muitas mulheres, com chapéus e vestidos elegantes, desfilavam charme à espera de um olhar e, quem sabe, um galanteio de Heleno de Freitas.
Otto Lara Resende dizia que o Botafogo sem Garrincha seria menos Botafogo. Um exagero. Mas sem dúvida o Botafogo é menos Botafogo sem um estádio em Botafogo.

Sabe o que nos falta? Sonhar alto, como aqueles meninos que, numa aula de álgebra, decidiram fundar aquela que é nossa grande paixão.
Eu quero o Botafogo de volta a Botafogo, com estádio e tudo, porque, a cada novo dia o amo mais!
Paulo Marcelo Sampaio
P.S.: As fotos, tiradas pela equipe de Manchete, fazem parte de uma fotonovela sobre Mané Garrincha, publicada por Manchete Esportiva, em setembro de 1959. Em breve a fotonovela estará aqui no Arquiba Botafogo.