JOÃO, NO CORAÇÃO DO BRASIL

Agosto 25th, 2008 de admin

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João Gilberto é como um morcego. Só a noite o vê. Reza a lenda que, para não ser visto, embarca e desembarca dos táxis que o servem na garagem de seu prédio. É tão discreto que há vizinhos que nem sabem que mora na porta ao lado. Pede comida em casa e compensa os motoboys com gordas gorjetas.

Ontem ele não confirmava o mito. Era um homem simples. Curvado, pisou o palco do Teatro Municipal faltando cinco minutos para as dez da noite. Para quem estava na galeria, como eu, percebia o efeito dos holofotes, que formavam um coração.

Terno e gravata escuros, camisa azul clara, João aparentava tranqüilidade. E discrição, como na homenagem a um conterrâneo ilustre, que nos deixou há poucos dias. Você já foi à Bahia, nega?/ Não?/ Então vá!/ Quem vai ao Bonfim, minha nega/ Nunca mais quer voltar/ Muita sorte teve/ Muita sorte tem/ Muita sorte terá/ Você já foi à Bahia, nega?/ Não?/ Então vá!, convocou João. “Isso é Dorival Caymmi, vocês sabem , né?”, informou, provavelmente com um quê de saudade de um de seus compositores prediletos.

Caetano Veloso, em entrevista à TV Globo, disse que há um mês não pensava em outra coisa. Se ele contava os dias, eu esperava por essa noite há quase vinte anos. Foi um desfile de clássicos e de releituras, prova de que João Gilberto continua moderno, novo, aos 75 anos. E foi este senhor de bem com a vida que surpreendeu a todos. Tosses na pláteia, flashes de máquinas fotográficas, até sons baixinhos de toques de celulares, mais tosses nos balcões, nada disso parecia incomodá-lo.

Aos primeiros versos de Garota de Ipanema, a platéia ousou acompanhar. Fiquei mudo, prendendo a respiração, esperando um rompante de João Gilberto. A reclamação dele numa gravação de um especial para a TV Globo na década de 80 - quem não se lembra da frase “essa coisa do ar condicionado, Liga, desliga. Não adianta. Eu sinto” - não saía da minha cabeça. E aí veio a surpresa. “Gostei desse sussurinho. Vamos fazer de novo?”, sugeriu João. “Não quero mais ir embora”, disse ele. Nunca imaginava que fosse ter esse privilégio: cantar acompanhado pelo violão de João Gilberto. “Eu disse que ia mas não vou”, anunciando outro bis. E encerrou a noite com O Pato, pedindo ajuda da platéia nos “qüem-qüens”.

Depois de uma hora e quarenta minutos, vinte minutos para a meia-hora, João Gilberto deve estar feliz. Insone, provavelmente atravessará a madrugada com a certeza de que conquistou o coração do Brasil.

Que sabor de derrota que nada!

Como vocês notaram, não pude ir ao jogo ontem. Tutuca Zamagna tratou de me manter informado. Ele acha que o Botafogo recuou demais depois do gol. E por isso foi castigado. Mas acho que o empate não foi mal resultado. No sábado estarei no Engenhão.

O Botafogo somos nós!

Paulo Marcelo Sampaio

Enviado em Botafogo |

3 respostas

  1. fábio gomes

    que maravilha, paulo!

    depois de um empate amargo, é prazeroso ler sobre joão gilberto…

  2. Tutuca Zamagna

    Não foi só o recuo exagerado, Paulo Marcelo. Contra Cruzeiro e Sport recuamos também depois do gol. Mas num o jogo estava no fim, no outro o campo não permitia o toque de bola. Contra o Vasco, fizemos o gol antes dos 10 minutos do 2o tempo e não soubemos explorar o desespero do adversário. Começamos a fazer muita ligação direta, e a explorar demais os avanços ora do displicente Triguinho (como anda cruzando burocraticamente esse cara!) ora do afobado Thiaguinho (O Nei tem de explicar que não adianta ele atacar se continuar apostando corrida com a bola!). Ganhar de 1 x 0 só é bom quando é o que dá pra fazer. Ficar no 1 x 0 contra um timinho que está pedindo pra ser goleado é dar chance pro azar. E o azar não perdoa, nunca perdoou o Botafogo.
    Abração
    P.S.: Previsão: Se o Lúcio Flávio entrar em campo, seremos campeões!

  3. Tutuca Zamagna

    Falando em João, Paulo Marcelo, não resisto a externar minha aflição mais recente. Trata-se do João Pedro Figueira. Da cara dele, pra ser mais exato, pois da pessoa pouco sei. Mas que aquele topete à Crivela me incomoda muito, lá isso incomoda!

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