A GÊNESE DE UM TÍTULO

Passar em frente às ruínas do estádio da rua General Severiano no fim dos anos 70 me incomodava muito. Mais que isso. Doía meu coração. Não havia uma vez sequer que deixasse de me perguntar: como um lugar que servira de palco para a arte e a magia de um Heleno de Freitas, de um Nilton Santos, de um Garrincha, de um Amarildo, de um Paulo Cézar, podia estar entregue ao abandono? Como os dirigentes tiveram a coragem de vender a velha sede? Para um garoto de dez anos, era difícil entender como o Botafogo preferira se instalar no distante e calorento bairro de Marechal Hermes. Perder um terreno que era o nosso DNA doía mais do que ouvir o ‘Parabéns pra Você’, cantado pelos rivais para lembrar o nosso jejum. Mas, na falta de uma taça, cada vitória em clássicos comemorávamos com se um título fosse. Quem não se lembra dos 3 a 1 contra o Flamengo, pelas quartas-de-final do Brasileiro de 81? E os 4 a 1 contra o Vasco, pelo Estadual de 82, com shows de Té e Geraldo?
Nada, repito, doía mais do que estar longe de nossas raízes. A nostalgia era tanta que um dia, em São Januário, antes de um jogo contra o Volta Redonda, em 89, abordei João Saldanha, sempre cercado de torcedores onde quer que chegasse. “João, se o Botafogo for campeão, vamos pedir uma autorização à Vale do Rio Doce [a dona do terreno] para fazer uma pelada em comemoração ao título?”. sugeri. “Autorização? Pra que autorização? A gente invade aquilo lá”, respondeu, indignado, mas com um leve sorriso no canto da boca. Havia, naquele ano, algo de muito especial. Não sei bem porque, comecei a encarar as viagens do ônibus 378, que me levava do Castelo até Marechal Hermes. O cenário do estádio Mané Garrincha era desolador. Nas arquibancadas tubulares, eram poucos os lugares onde ainda havia madeira que pudessem servir de assento aos torcedores. Lá dentro, nos vestiários, a coisa deve ser melhor, pensava eu. Ledo engano. Tudo era precário, confirmado anos depois por muitos jogadores daquele elenco, elenco formado um ano antes.
A gênese do fim do jejum não foi o gol de Mauricio. O título nasceu um ano antes, na Cabana da Serra, um restaurante na estrada Grajaú-Jacarepaguá. Foi lá que Emil Pinheiro e Castor de Andrade resolveram selar o destino de Paulinho Criciúma, Mauro Galvão e Marinho. Por uma montanha de dinheiro vivo, eles trocaram o Bangu pelo Botafogo. Paulinho, bem articulado e politizado, pinta de Jesus Cristo, chegava disposto a fazer história. E decidido a não ser mais um a ser crucificado. Era um jogador diferente. Escrevia poemas em cartolinas que, junto com um poster de Che Guevara, decoravam seu apartamento. Galvão era um líder precoce, que não se intimidava. Depois de um jogo contra o Flamengo, foi criticado por uma falta violenta em Zico. “Eu marco jogador, não marco nome”, respondeu, encerrando a farra dos tietes disfarçados de jornalistas. Nas conversas com torcedores, eles passavam toda a confiança. No primeiro jogo da final de 89, Carlos Alberto procurou Paulinho Criciúma ainda no vestiário. “Paulinho, esse título é nosso. Não sei se vamos ser campeões na quarta que vem ou no próximo domingo. Mas dificilmente eles vão fazer gol na gente. Se você e o Maurício resolverem lá na frente, a gente segura lá atrás.”
Acabada a volta olímpica, me preparei para pagar uma promessa: voltar a pé para a zona Sul. Rogerinho, meu amigo de Mancha Alvinegra, me acompanhou nessa via nada crucis, um caminho da libertação. Enquanto a maioria dos torcedores se dirigiam ao Mourisco, meu destino não poderia ser outro: o velho e arruinado palacete da rua Venceslau Brás. Ali, certamente, repousavam os espíritos de Mané, de Heleno, de Neném Prancha, de Paulinho Valentim. Queria, de alguma forma, estar perto dos personagens de um tempo que não vivi. De lá pra cá, os títulos vieram com mais frequência. Mas não troco aquela faixa de campeão por nenhum outro título. Depois daquele 21 de junho nunca mais seríamos os mesmos. Nem nós, nem o Botafogo.
A cada novo dia, independentemente de conquistas, amo mais o Botafogo
Paulo Marcelo Sampaio
P.S.: Esta matéria tem orgulho de fazer parte de uma página espacial na internet www.botafogo1989.wordpress.com, idéia do botafoguense Eduardo Zobaran para celebrar os 20 anos da histórica conquista que pôs fim ao nosso jejum. Não deixem de visitá-la.
Enviado em Botafogo |
Junho 21st, 2009 às 12:31
[…] Paulo Marcelo Sampaio vai ainda mais além. No Arquiba Botafogo, ele passa pelos grandes craques da nossa história e pela tristeza em ver as ruínas do estádio de General Severiano para explicar o que o levou a comemorar a quebra do tabu de uma forma no mínimo curiosa. Essa eu não antecipo, mas vale conferir também uma confidência de João Saldanha e, ainda, a revelação do momento exato em que dois contraventores do jogo do bicho deram luz ao título de 89. […]
Junho 21st, 2009 às 18:44
Maravilha de texto, parabéns Paulo!
Junho 21st, 2009 às 21:03
PM, esta matéria está sensacional. No dia 21 de junho DE 1989, voltei a pé do Maraca e passei em General Severiano, que era uma ruína alvi-negra e o Casarão era um lago lá embaixo.
ANDRÉ BARROS
Junho 21st, 2009 às 21:39
Sensacional !! Parabéns pelo belíssimo texto !!
Junho 22nd, 2009 às 12:37
PM, parabéns pelo belo texto!
abs,
Junho 23rd, 2009 às 17:32
Fantástico texto Paulo! Impossível não viajar nas histórias do nosso casarão, de Marechal , dos tempos das vacas magras em que ganhar clássico era como título, do inesquecível 3x1 no Fla, em 81, com o gol ‘Baila Comigo’ do Mendonça em cima do Júnior (eu estava lá), e relembrar a sagacidade do Saldanha foi demais. Parabéns!