Quando entrava em campo, ficava com o diabo no corpo. Fora das quatro linhas, sempre com ternos de fino corte e sapatos italianos, Heleno de Freitas desfilava elegância e boa educação. Vaidoso, carismático, bonito, o craque alimentava a idolatria dos fãs. Era atencioso, principalmente com as crianças. Como num dia da distante década de 40. Quando fez cinco anos, João Ignácio surpreendeu o pai. Só queria um presente: todo o time do Botafogo em sua festa. Impossível!, falou o pai, reduzindo a cinzas a esperança do pequeno. Para não aumentar a frustração do filho, João Pedro Müller resolveu trabalhar em silêncio. Procurou um dirigente do clube. Dias depois, quem aparece na vila? Heleno de Freitas, em carne e osso, com um brinquedo debaixo do braço: um caminhão do corpo de bombeiros.
Quem viveu os anos de ouro de Copacabana, tem história pra contar. Como Ivan Lessa, que não se esquece do primeiro jogo noturno de futebol de praia. “Os holofotes ficavam no alto de um edifício cor de rosa que tinha ali, entre Bolivar e Xavier da Silveira. No jogo principal, além de Heleno, sou capaz de jurar que tinha Maneca e Friaça também. No intervalo, os jogadores sentados na areia. Eu e outros garotos peruando. Heleno esculhambando um rapaz ruivo, ponta-esquerda, danado de bom, e que chamavam de Tijuquinha. Lembro da frase de Heleno, agressivíssima, claro, para o rapaz: “Eu passo a bola você fica lá com cara de bobo.” O fãzoca conhecia ali, bem de pertinho, o temperamento do craque.

Botafogo de 45. Em pé: Negrão, Laranjeiras, Sarno, Ary, Spinelli e Ivan; agachados: Renê, Tovar, Heleno, Tim e Franquito.
A uma da tarde de um dia de semana, primeiro semestre de 1948, quase ninguém na praia. Ivan lembra que se fosse hoje. “Surgem, vindos da Bolívar, Heleno de Freitas e outro senhor (devia ter uns 25 anos) que estava sempre por lá, pelo posto 4 e meio, pulam do calçadão, correm pela areia. Eu, garoto botafoguense, vigoroso half-esquerdo do Dínamo, do Tião Macalé, idolatrava - não há outro verbo - Heleno. Era a única coisa de que ele não desdenhava: a idolatria. E jogar futebol, evidente. Corri, Alain Scemama e eu corremos, atrás dele. “Ei, Heleno! Heleno!’ E isso e aquilo outro. Ele e o amigo estavam jogando areia um no outro. Estou vendo o calção de Heleno. Calção de time de futebol. Negro, lacinho para fora na altura do umbigo, um número em branco do lado esquerdo. Quase que juro que eram 3 dígitos. Estávamos quase ao lado de um dos gols do Lá Vai Bola, que tinha seu campo ali mesmo. Passei a bola branca de vôlei para ele. Fui para o gol. Folguei, “Chuta, Heleno, chuta!” Ele perguntou, “Você pega mesmo?”. Disse que sim. Heleno de Freitas levou minha bola de vôlei, aquela comprada no “Lá em Casa Brinquedos”, na avenida Copacabana, 120 mil-réis, botou debaixo do braço, contou onze passos a partir do centro da baliza (Heleno com minha bola debaixo do braço e pronto para chutar, meu Deus do céu!), fez um montinho na areia, arrumou a redonda, pegou distância e chutou. Mandou uma cacetada daquelas. Se eu toco no bola, iam embora meus dedos. Heleno disse, “Foi gol”. Não discuti. Daí ele saiu correndo com o amigo pela areia e cairam na água. Eu e Alain fomos atrás. Eu jogava a bola para Heleno de Freitas. Ele devolvia. Heleno me devolvia a bola cabeceando, Heleno me devolvia a bola com as mãos. Gozado, não mostrava na água a mesma elegância ou desaforada petulância que esbanjava no campo e que, possivelmente, além de ele ser boa pinta e ter carro-esporte em dois tons de azul, fora o motivo de minha, digamos assim, admiração, que é para eu parecer menos frescão. Ou fresquinho. Assim como veio, foi-se embora com o amigo, sempre correndo, dizendo em voz alta mistérios que nunca saberei o que eram. Lá fiquei eu, as mãos vazias, o coração aos pulos. Passei uns bons tempos indo à praia no mesmíssimo lugar, mesma hora, sempre com a bola, com ou sem Alain, esperando a colher de chá de um segundo pênalti, que acabou não vindo nunca.”

Botafogo de 46. Em pé: Ivan, Negrão, Juvenal, Gérson, Osvaldo Baliza e Belacosa; agachados: Lula, Tovar, Heleno, Geninho e Braguinha.
Na despedida do Botafogo, quando o jogador assinou o distrato, todos choraram. Um dia antes de partir para Buenos Aires, onde defenderia o boca juniors, Heleno foi procurado por Carlito Rocha. O dirigente pedia pelo amor de Deus que ele não deixasse o clube. Comovido, disse que não podia voltar atrás com sua palavra. E partiu. Certos ou errados, ingratos ou realistas, os dirigentes veriam o Botafogo ser campeão no ano seguinte, contra o Vasco - já esboço do Expresso da Vitória e base da seleção de 1950 - interrompendo um jejum de 12 anos. Sem Heleno. Da terra do tango, dia seguinte à vitória, chegou um telegrama endereçado à rua Vesceslau Brás, 72. “Jogadores profissionais do Botafogo PT Felicitações campeonato obtido PT Sinto-me radiante tão grande feito PT Viva o Botafogo PT” A mensagem era de Heleno. Mesmo fora de campo, continuava um apaixonado pelo clube.
Se existe a Santíssima Trindade no futebol, ela é Heleno de Freitas, Nilton Santos e Garrincha. Desses três deuses, Heleno, que faria 90 anos hoje, é corpo, coração e alma do Botafogo que tanto amamos.
Paulo Marcelo Sampaio
Nota: Hoje é aniversário de outro grande botafoguense. Parabéns, Juca Barros, pelos seus 10 anos de amor ao Glorioso!
Nota 2: Essas e outras histórias de Heleno podem ser lidas nos Dez mais do Botafogo, que lancei em novembro do ano passado pela Editora Maquinária.
Créditos: As fotos dos times foram retirados do site reliquiasdofutebol.blogspot.com